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Você conhece o processo de produção de um fitoterápico?

Foto do escritor: Dra Priscila Mimary
Dra Priscila Mimary
há 5 dias
9 min de leitura

Da Semente ao Paciente


Uma cápsula, um chá ou uma tintura podem parecer simples à primeira vista. Mas, por trás de um fitoterápico confiável, existe uma sequência criteriosa de decisões: qual planta será usada, como ela será cultivada, quando será colhida, de que forma seus compostos serão extraídos e como sua segurança será avaliada. Você conhece todo o processo de produção de um fitoterápico? Essa pergunta ajuda a entender por que “ser natural” não é sinônimo automático de ser seguro, eficaz ou indicado para qualquer pessoa.

Na prática clínica, a fitoterapia pode ser uma ferramenta valiosa para alguns quadros, desde que faça parte de uma avaliação individualizada. Sintomas como insônia, alterações intestinais, ansiedade com manifestações físicas, fadiga e processos inflamatórios podem ter múltiplas causas. A planta medicinal não substitui uma boa investigação médica, e sua escolha não deve se basear apenas em promessas, relatos na internet ou no rótulo de um produto.


Poucas pessoas fazem ideia de todo processo...

O processo começa muito antes da embalagem


A qualidade de um fitoterápico começa na identificação correta da espécie vegetal. Nomes populares variam de uma região para outra e, em alguns casos, podem se referir a plantas diferentes. Por isso, a classificação botânica, com gênero e espécie, é essencial. Usar a planta errada pode significar ausência do efeito esperado ou até risco de toxicidade.

Também importa saber qual parte da planta concentra os compostos de interesse. Em uma mesma espécie, folhas, raízes, cascas, sementes e flores podem ter composições muito distintas. Um produto elaborado com a parte inadequada não equivale, necessariamente, ao que foi estudado em pesquisas ou utilizado de forma tradicional.

Cultivo, origem e momento da colheita

O ambiente em que a planta cresce interfere diretamente em sua composição. Solo, clima, irrigação, exposição a pragas e uso de defensivos podem alterar a concentração de substâncias ativas e aumentar o risco de contaminantes. Por isso, a rastreabilidade da matéria-prima é um ponto relevante: é preciso saber de onde ela veio e como foi manejada.

O momento da colheita também não é um detalhe. Algumas plantas apresentam maior concentração de determinados componentes em períodos específicos do ciclo de desenvolvimento. Depois da colheita, o armazenamento precisa proteger o material contra umidade, fungos, luz excessiva e degradação química.

Quando esses cuidados não existem, dois frascos com o mesmo nome na embalagem podem ter resultados completamente diferentes. Essa é uma das razões pelas quais produtos artesanais, misturas sem identificação clara ou preparações compradas sem procedência exigem cautela adicional.

Da planta ao extrato: onde a padronização faz diferença

Após a seleção e o controle da matéria-prima, vem a etapa de processamento. A planta pode ser seca, moída e submetida à extração com água, álcool ou outros solventes adequados. O método escolhido depende dos compostos que se deseja obter, porque algumas substâncias são mais bem extraídas em água, enquanto outras exigem outro meio.

Esse extrato é a base de muitas apresentações, como cápsulas, comprimidos, gotas, cremes e soluções. Porém, extrair não basta. É preciso controlar a concentração dos chamados marcadores químicos, substâncias utilizadas para verificar a identidade e a consistência do extrato. Em termos simples, a padronização busca reduzir a variação entre lotes.

Isso não significa que todo efeito de uma planta possa ser explicado por um único composto. Muitas vezes, o resultado terapêutico decorre da interação entre diversos constituintes. Ainda assim, controlar marcadores ajuda a assegurar que o produto de hoje seja semelhante ao produto avaliado em estudos e ao que será utilizado amanhã.

Controle de qualidade e segurança

Antes de chegar ao paciente, um fitoterápico de qualidade deve passar por análises que investigam pureza, identidade e estabilidade. Entre os pontos avaliados estão presença de microrganismos, fungos, metais pesados, resíduos de agrotóxicos, adulterações e possíveis misturas com medicamentos sintéticos não declarados.

Esse cuidado é especialmente relevante porque já foram identificados, no mercado informal, produtos vendidos como naturais com substâncias farmacológicas ocultas. Além de enganosa, essa prática pode causar efeitos adversos, interações e atrasar um diagnóstico adequado.

A estabilidade também precisa ser observada. Calor, umidade e luz podem modificar o produto ao longo do tempo. Prazo de validade, embalagem apropriada e condições de armazenamento não são formalidades: ajudam a preservar as características esperadas até o momento do uso.

Você conhece todo o processo de produção de um fitoterápico e sua evidência?

Produzir um extrato bem controlado é fundamental, mas não responde sozinho à principal pergunta clínica: ele funciona para qual situação, em qual dose e para qual pessoa? Qualidade farmacêutica e evidência de benefício são dimensões diferentes, embora complementares.

No Brasil, fitoterápicos destinados ao uso terapêutico precisam seguir exigências sanitárias. Dependendo da categoria e da indicação, a comprovação pode envolver dados de uso tradicional reconhecido ou estudos que sustentem segurança e eficácia. Isso não quer dizer que todo produto à base de planta tenha a mesma força de evidência ou a mesma indicação.

Uma planta pode ter resultados promissores para um sintoma específico e, ainda assim, não ser a melhor escolha para todos os pacientes. Estudos podem usar um extrato padronizado, em uma dose definida e durante determinado período. Trocar a apresentação, a concentração ou a procedência pode mudar completamente o que se espera do tratamento.

Há também limites necessários. Em algumas condições, a fitoterapia pode atuar como apoio a mudanças de hábitos e a tratamentos convencionais. Em outras, a prioridade é investigar causas potencialmente graves ou iniciar uma terapia médica bem estabelecida. Prometer que um fitoterápico “cura” doenças complexas, emagrece sem mudanças consistentes ou resolve qualquer tipo de inflamação é uma simplificação que não protege a saúde.

O que muda quando o fitoterápico chega à consulta

A mesma planta que parece adequada para uma pessoa pode não ser segura para outra. Histórico de alergias, doenças do fígado ou dos rins, hipertensão, alterações de coagulação, uso de antidepressivos, anticoagulantes, anticonvulsivantes ou imunossupressores são exemplos de fatores que podem modificar a decisão clínica.

Gestantes, lactantes, adolescentes, idosos e pessoas com doenças crônicas exigem avaliação ainda mais cuidadosa. Não se trata de proibir automaticamente o uso, mas de reconhecer que doses, riscos, interações e alternativas precisam ser considerados com mais atenção.

Em uma consulta individualizada, a escolha não parte de uma lista pronta de produtos. Parte da história da pessoa: quando o sintoma começou, como é o sono, o funcionamento intestinal, a rotina, a alimentação, o nível de estresse, os medicamentos em uso, os exames e o exame físico. Eu não trato exames, eu trato pessoas. Por isso, cada tratamento é único porque cada paciente é único.

Por exemplo, alguém que relata cansaço persistente pode estar dormindo mal, convivendo com sobrecarga emocional, apresentando deficiência nutricional, alteração tireoidiana, efeitos de medicamentos ou uma doença inflamatória. Um recurso fitoterápico pode eventualmente ser considerado, mas não deve encobrir a investigação dessas possibilidades.

Como fazer escolhas mais seguras

Ao considerar um fitoterápico, observe se o rótulo apresenta claramente o nome científico da planta, a parte utilizada, a concentração, o fabricante, o lote, o prazo de validade e as orientações de uso. Desconfie de produtos que prometem resultados amplos e rápidos demais, que não informam sua composição com clareza ou que recomendam abandonar tratamentos prescritos.

Também vale evitar a ideia de que aumentar a dose acelera o benefício. Plantas medicinais têm princípios ativos, podem causar reações adversas e podem interagir com medicamentos. Se houver palpitações, tontura, piora da ansiedade, sintomas digestivos intensos, alterações de pele ou qualquer sinal inesperado após o início do uso, a orientação é interromper a automedicação e buscar avaliação profissional.

O melhor fitoterápico não é o mais popular nem o mais caro. É aquele cuja qualidade foi assegurada, cuja indicação faz sentido para o seu caso e cujo uso é acompanhado com critério. Cuidar da saúde inclui respeitar a complexidade do corpo e dar espaço para escolhas que unam conhecimento científico, escuta e segurança.

Conheça todo o processo por traz do fitoterápico

1. Seleção da espécie vegetal e da semente/muda

o Definição da espécie medicinal.

o Identificação botânica: gênero, espécie, variedade/quimiotipo.

o Escolha da parte da planta que será utilizada.

o Seleção de sementes ou mudas com procedência e rastreabilidade.

o Avaliação de identidade, pureza, germinação, vigor e sanidade.

o Definição do perfil fitoquímico desejado.

2. Planejamento do cultivo

o Escolha da região e condições climáticas adequadas.

o Avaliação de solo, água, luminosidade, temperatura e umidade.

o Definição da época de plantio.

o Estabelecimento das Boas Práticas Agrícolas e de Coleta.

o Prevenção de contaminação por agrotóxicos, metais pesados e microrganismos.

3. Cultivo da planta medicinal

o Semeadura/propagação. o Irrigação.

o Adubação.

o Controle de plantas invasoras.

o Controle de pragas e doenças.

o Monitoramento do desenvolvimento.

o Registro e rastreabilidade do lote durante o cultivo.

4. Controle botânico e fitoquímico durante o cultivo

o Confirmação da identidade da espécie.

o Avaliação da presença dos constituintes químicos de interesse.

o Determinação do momento em que a planta apresenta concentração adequada dos princípios/constituintes ativos ou marcadores.

5. Colheita

o Escolha da época do ano.

o Definição do estágio de desenvolvimento.

o Determinação do horário mais apropriado, quando relevante.

o Colheita da parte medicinal correta: raiz, rizoma, caule, casca, folha, flor, fruto, semente etc.

o Prevenção de mistura com outras espécies e matérias estranhas.

6. Processamento primário pós-colheita

o Seleção.

o Limpeza.

o Lavagem, quando aplicável.

o Retirada de partes inadequadas ou contaminantes.

o Fragmentação/corte, quando necessário.

o Secagem em condições controladas.

7. Obtenção da droga vegetal

o A matéria-prima vegetal, após processamento apropriado, constitui a droga vegetal.

o Controle da umidade.

o Controle microbiológico.

o Pesquisa de contaminantes.

o Identificação macro e microscópica.

o Perfil cromatográfico/fitoquímico.

o Determinação de marcadores químicos quando aplicável.

8. Armazenamento da droga vegetal

o Embalagem adequada. o Proteção contra a luz, umidade, calor, insetos e contaminação. o Controle de temperatura e umidade.

o Identificação do lote.

o Registro da origem, colheita e validade.

9. Processamento da droga vegetal

o Trituração/moagem, quando necessária.

o Padronização granulométrica.

o Preparação para extração ou utilização direta.

o Novo controle de qualidade antes do processamento industrial.

10. Extração dos constituintes vegetais

o Escolha do método de extração.

o Seleção do solvente adequado: água, etanol, mistura hidroalcoólica etc.

o Maceração, percolação, infusão, decocção ou outros processos tecnológicos.

o Controle de relação droga: solvente, temperatura, tempo e pH.

11. Obtenção do derivado vegetal

o Extrato líquido.

o Tintura.

o Extrato fluido.

o Extrato mole.

o Extrato seco.

o Óleo essencial ou outros derivados, conforme a planta e o produto.

12. Concentração e/ou secagem do extrato

o Remoção controlada do solvente.

o Concentração.

o Secagem, quando necessária.

o Processos como spray drying ou liofilização podem ser empregados conforme o produto.

13. Padronização do extrato

o Determinação dos marcadores químicos.

o Quantificação de substâncias ativas quando conhecidas.

o Ajuste da concentração do extrato.

o Definição da relação droga:extrato (DER), quando pertinente.

o Garantia de reprodutibilidade entre lotes.

14. Controle de qualidade do derivado vegetal

o Identidade.

o Perfil cromatográfico.

o Teor de marcadores.

o Umidade.

o Resíduos de solventes.

o Contaminação microbiológica.

o Micotoxinas, quando aplicável.

o Metais pesados.

o Agrotóxicos.

o Outros contaminantes pertinentes.

15. Desenvolvimento farmacêutico

o Escolha da forma farmacêutica.

o Definição da dose.

o Avaliação de estabilidade.

o Compatibilidade com excipientes.

o Biodisponibilidade/liberação quando aplicável.

o Definição das condições de armazenamento.

16. Formulação

o Cápsulas.

o Comprimidos.

o Soluções/gotas.

o Xaropes.

o Tinturas. o Cremes/pomadas/géis.

o Outras formas farmacêuticas apropriadas.

17. Produção do medicamento fitoterápico

o Pesagem das matérias-primas.

o Mistura. o Granulação, quando necessária.

o Encapsulamento/compressão/envase.

o Controle das etapas críticas.

o Aplicação das Boas Práticas de Fabricação.

18. Controle de qualidade do produto acabado

o Identidade.

o Teor dos marcadores/substâncias ativas.

o Uniformidade.

o Peso/volume.

o Desintegração e dissolução, quando aplicáveis.

o Controle microbiológico.

o Características físico-químicas.

o Avaliação da embalagem.

19. Estudos de estabilidade

o Estabilidade física. o Estabilidade química.

o Estabilidade microbiológica.

o Manutenção dos marcadores.

o Definição das condições de conservação.

o Determinação do prazo de validade.

20. Embalagem

o Escolha do material compatível com o produto.

o Proteção contra luz, oxigênio, umidade e temperatura, quando necessária.

o Embalagem primária e secundária.

21. Rotulagem e documentação

o Nome do produto.

o Composição.

o Concentração.

o Forma farmacêutica.

o Via de administração.

o Número do lote.

o Fabricação e validade.

o Condições de conservação.

o Advertências e demais informações regulatórias.

22. Liberação do lote

o Revisão da documentação de produção.

o Conferência dos resultados analíticos.

o Aprovação pelo controle/garantia da qualidade.

o Liberação somente após atendimento às especificações.

23. Armazenamento do produto acabado

o Controle de temperatura, umidade e luminosidade.

o Rastreabilidade dos lotes.

o Controle de estoque e validade.

24. Distribuição e transporte

o Manutenção das condições adequadas de conservação.

o Controle de transporte.

o Rastreabilidade até o estabelecimento dispensador.

25. Prescrição

o Avaliação clínica do paciente.

o Indicação apropriada do fitoterápico.

o Avaliação de contraindicações.

o Interações planta–medicamento.

o Dose, via, frequência e duração do tratamento.

o Consideração de populações especiais.

26. Dispensação

o Conferência da prescrição.

o Identificação correta do medicamento.

o Orientação sobre administração.

o Conservação.

o Duração do tratamento.

o Possíveis efeitos adversos e interações.

o Adesão ao tratamento.

27. Entrega ao paciente

28. Acompanhamento clínico

o Avaliação de eficácia.

o Avaliação de segurança.

o Monitoramento de exames quando indicado.

o Ajuste ou suspensão do tratamento quando necessário.

29. Farmacovigilância

o Identificação de suspeitas de reações adversas.

o Avaliação de interações.

o Registro de queixas técnicas.

o Notificação aos sistemas competentes quando indicada.

o Monitoramento contínuo da relação benefício-risco.

Fluxo resumo do processo

SEMENTE/MUDA → CULTIVO → COLHEITA → PROCESSAMENTO PÓS-COLHEITA → DROGA VEGETAL → CONTROLE DE QUALIDADE → EXTRAÇÃO → DERIVADO VEGETAL → PADRONIZAÇÃO → FORMULAÇÃO → PRODUÇÃO → CONTROLE DO PRODUTO ACABADO → ESTABILIDADE → EMBALAGEM → LIBERAÇÃO DO LOTE → ARMAZENAMENTO → DISTRIBUIÇÃO → PRESCRIÇÃO → DISPENSAÇÃO → PACIENTE → ACOMPANHAMENTO → FARMACOVIGILÂNCIA

Diferença importante

Uma distinção importante: a planta medicinal → droga vegetal → derivado vegetal → medicamento fitoterápico são etapas/conceitos diferentes. O simples fato de um produto ter origem em uma planta não significa que ele já seja um medicamento fitoterápico.


Referência

PEREIRA, Ana Maria Soares; DONEIDA, Victor Carlos; DANDARO, Ivanice Maria Cestari; CARMONA, Fabio (org.). Farmácia Viva: tradicionalidade, ética, ciência, tecnologia e inovação em saúde. 1. ed. digital. Jardinópolis, SP: Farmácia da Natureza, 2023. 293 p.



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© 2026 por Dra Priscila Mimary 

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