Você sabia que a disfunção da ATM pode estar associada a dores na coluna e nos ombros?

Atualizado: 27 de ago.
Por Dra Priscila Mimary e Dr Sidney Neves
A dor que começa perto da mandíbula e, aos poucos, parece se espalhar para o pescoço, os ombros e as costas pode ser bastante desconcertante. Você sabia que a disfunção da ATM causa dor na coluna e nos ombros? Em algumas pessoas, sim: alterações na articulação temporomandibular e nos músculos da mastigação podem contribuir para um quadro de tensão muscular mais amplo. Isso não significa que toda dor nas costas venha da mandíbula, mas essa conexão merece uma avaliação cuidadosa.
A ATM é a articulação que liga a mandíbula ao crânio, localizada logo à frente das orelhas. Ela participa de movimentos cotidianos, como falar, mastigar, bocejar e engolir. Quando há dor, limitação de movimento ou sobrecarga nessa região, o corpo pode adaptar a postura e recrutar músculos do pescoço e dos ombros de forma excessiva. O resultado pode ser um ciclo de dor e tensão que não melhora apenas com massagens ocasionais ou analgésicos.
Como a dor na ATM pode se associar a dor na coluna e nos ombros?
A mandíbula não trabalha isoladamente. Os músculos responsáveis pela mastigação se conectam funcionalmente às estruturas do pescoço, da cabeça e da cintura escapular. Quando uma pessoa aperta os dentes, range durante o sono ou mantém a mandíbula contraída em momentos de tensão, músculos como o temporal e o masseter podem ficar sobrecarregados. Ao mesmo tempo, é comum haver aumento de tensão nos músculos cervicais e nos trapézios, localizados entre o pescoço e os ombros.
Essa sobrecarga pode mudar a forma como a cabeça é sustentada. Algumas pessoas passam a projetar o pescoço para a frente, elevar os ombros ou restringir os movimentos para evitar dor. Ao longo do tempo, essas compensações podem afetar a região torácica, especialmente a parte alta das costas. Por isso, quem tem dor na região temporomandibular pode relatar também dor na nuca, sensação de peso nos ombros, rigidez entre as escápulas e episódios recorrentes de cefaleia.
Ainda assim, é preciso cuidado com simplificações. A coluna tem muitas possíveis fontes de dor: sedentarismo, sobrecarga no trabalho, alterações musculares, artrose, hérnias, doenças inflamatórias, sono inadequado e estresse são apenas alguns exemplos. A relação entre ATM, ombros e coluna existe, mas precisa ser investigada no contexto de cada pessoa.
O papel do estresse, do sono e do bruxismo
O estresse emocional pode se manifestar fisicamente. Em algumas pessoas, ele aparece como mandíbula apertada, dores de cabeça, respiração mais curta, dificuldade para dormir e ombros permanentemente elevados. Não se trata de imaginar a dor ou de atribuir tudo ao aspecto emocional. Trata-se de reconhecer que o sistema nervoso, o sono, os músculos e as emoções se influenciam mutuamente.
O bruxismo, caracterizado por ranger ou apertar os dentes, é um fator frequente de sobrecarga mandibular. Ele pode acontecer durante o sono ou ao longo do dia, muitas vezes sem que a pessoa perceba. Acordar com a face cansada, notar sensibilidade nos dentes, ter estalos ao abrir a boca ou sentir dor nas têmporas são pistas possíveis.
Uma rotina de sono ruim também piora o cenário. Dormir pouco ou de maneira fragmentada reduz a capacidade do organismo de modular a dor e favorece maior tensão muscular. Por isso, tratar apenas a mandíbula sem olhar para a qualidade do sono, a ansiedade física, os hábitos de trabalho e a recuperação corporal pode trazer um alívio limitado.
Sinais de que a dor pode envolver a ATM
Nem toda disfunção da ATM apresenta todos os sintomas. Algumas pessoas têm estalos sem dor e não precisam de tratamento imediato. Outras sentem dor importante mesmo sem nenhum ruído na articulação. O que orienta a necessidade de avaliação é o conjunto de sinais, a frequência e o impacto na vida diária.
Vale observar se a dor nos ombros ou no pescoço aparece junto com desconforto ao mastigar, bocejar ou falar por muito tempo. Também merece atenção a sensação de mandíbula travando, dificuldade para abrir a boca, dor perto do ouvido sem infecção identificada, cansaço facial ao acordar e cefaleias frequentes, principalmente nas têmporas ou na nuca.
A dor pode ser difusa. Às vezes, a pessoa procura ajuda por causa de uma contratura persistente no trapézio e só durante a conversa percebe que vem apertando os dentes durante o dia. Em outros casos, o principal incômodo é a dor lombar, e a ATM não tem relação direta com o quadro. Uma boa consulta serve justamente para não assumir conexões antes de examiná-las.

Quando a dor exige avaliação médica sem demora
Dor muscular relacionada à ATM costuma ser incômoda, mas há sintomas que não devem ser atribuídos automaticamente à tensão ou ao bruxismo. Procure avaliação médica com prioridade se houver dor intensa e súbita no peito, falta de ar, fraqueza ou formigamento em um lado do corpo, desmaio, febre, perda de peso sem explicação, dor após trauma importante ou dificuldade progressiva para caminhar.
Também é recomendável investigar com mais atenção quando a dor na coluna acorda a pessoa durante a noite de forma recorrente, piora continuamente ou vem acompanhada de alteração no controle da urina ou das fezes. Esses sinais podem indicar condições que exigem outro tipo de abordagem.
No caso da mandíbula, inchaço importante no rosto, febre, dor de dente intensa, limitação súbita para abrir a boca ou dificuldade para engolir também precisam de avaliação rápida. Infecções odontológicas e outros problemas locais podem se confundir com dor de ATM, mas demandam cuidados específicos.
Como é feita uma investigação individualizada
Não existe um exame isolado que explique todas as dores relacionadas à ATM. A avaliação começa com uma escuta detalhada: quando os sintomas começaram, o que piora ou alivia, como está o sono, quais são os níveis de estresse, se há uso de medicamentos, histórico de traumas, hábitos de exercício e doenças prévias.
O exame físico observa a abertura e os movimentos da boca, a presença de dor à palpação dos músculos da face e do pescoço, a mobilidade da coluna e dos ombros, além de aspectos posturais. Dependendo dos achados, podem ser necessários exames complementares ou o acompanhamento conjunto com cirurgião dentista (para placas para bruxismo), fisioterapeuta, especialista em dor, cirurgião Bucomaxilofacial (para casos cirúrgicos) ou outros profissionais.
Essa visão integrada evita dois erros comuns: tratar toda dor na coluna como consequência da ATM ou ignorar a mandíbula quando ela participa de um padrão maior de tensão. Eu não trato exames, eu trato pessoas. Isso significa considerar os resultados de exames quando indicados, sem desvalorizar sintomas que afetam o sono, o trabalho e a qualidade de vida.
O que pode fazer parte do tratamento
O tratamento depende da causa predominante e da intensidade do quadro. Em muitos casos, a primeira medida é reduzir a sobrecarga muscular e interromper hábitos que mantêm a dor. Isso pode incluir orientação para evitar apertar os dentes durante o dia, mudanças temporárias na consistência dos alimentos quando mastigar é doloroso e cuidados com a posição de trabalho e descanso.
A fisioterapia pode ser indicada para trabalhar mobilidade, controle muscular, pescoço, ombros e coluna. Quando existe bruxismo ou alteração dentária relevante, a avaliação odontológica é essencial, inclusive para definir se uma placa estabilizadora é apropriada. Placas não devem ser usadas de forma indiscriminada, pois o modelo e a indicação variam conforme o diagnóstico.
Medicamentos podem ser úteis em fases específicas, mas não substituem a identificação dos fatores que sustentam o problema. Analgésicos e relaxantes musculares têm riscos e contraindicações, especialmente em uso prolongado ou sem orientação médica. Infiltrações e procedimentos invasivos também não são a primeira resposta para todos os pacientes.
Em uma abordagem integrativa baseada em evidências, estratégias como atividade física adaptada, técnicas de manejo do estresse, higiene do sono e acupuntura podem ser consideradas quando fazem sentido para o quadro clínico. A acupuntura, por exemplo, pode auxiliar algumas pessoas no controle da dor e da tensão muscular, mas deve integrar um plano terapêutico coerente, e não ser apresentada como solução milagrosa.
Alguns casos, é necessária a abordagem cirúrgica, após o correto diagnóstico evidenciando necessidade de cirurgia para correção do problema na ATM. Este procedimento pode consistir em alguns casos de um procedimento aonde é realizada uma pequena incisão na região um pouco antes da orelha (pré-auricular) para conseguir o acesso às estruturas intra-articulares, ou através de uma técnica minimamente invasiva, com uma microcâmera chamada artroscópio. Com o objetivo de reposicionar e fixar o disco articular (menisco) deslocado de sua posição anatômica correta, usando pequenas âncoras, procedimento chamado de Discopexia ou Cirurgia de Reposicionamento e fixação do disco articular, e é realizado por cirurgião bucomaxilofacial.
Pequenos hábitos que ajudam a reduzir a tensão
Ao longo do dia, observe a posição de repouso da mandíbula: os lábios podem ficar suavemente encostados, mas os dentes não precisam permanecer em contato. Essa percepção simples ajuda muitas pessoas a identificar o apertamento involuntário diante do computador, no trânsito ou em momentos de concentração.
Pausas curtas para movimentar pescoço e ombros, hidratação adequada e ajustes na altura da tela também podem reduzir a carga acumulada. Evitar mascar chiclete por longos períodos e não apoiar o queixo na mão são medidas razoáveis quando há dor na ATM. Porém, hábitos saudáveis não substituem uma consulta se a dor é persistente, limita movimentos ou interfere no sono.
Cada tratamento é único porque cada paciente é único. Se a mandíbula, os ombros e a coluna parecem fazer parte do mesmo problema, uma avaliação clínica ampla pode ajudar a encontrar conexões reais, excluir causas importantes e construir um caminho de cuidado que respeite o seu corpo e a sua rotina.
Dra Priscila Mimary
Dr Sidney Neves
Especialista e mestre em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial
Hospital Albert Einstein
CROSP 49.309
Whatsapp da clínica: 11 95073-2946



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